quinta-feira

carlinha.


Chamávamos carinhosamente (entre nós) de Carlinha, não de forma tão simplória, sempre antecedia uma interjeição e seguia um suspiro: Ah! Carlinha...
Acostumei a vê-la sem roupas e apesar dos 37 anos é assim que ela fica melhor. Despudorada e estática. Minuciosamente podia observar cada pequena curva ou dobra que se formava sobre sua superfície de acordo com a posição que permitia observá-la.

Jogo de volumes, reentrâncias, proeminências, saliências, formas várias.
Rosto sem expressão. O olhar além que, quando me olha, me transpassa. Figuro simplesmente como tantos outros.

As reverências são pra ela.

Da última vez que a encontrei o encanto já não foi o mesmo: estava coberta.

terça-feira

... e a beleza não é fundamental.


Uma hora da madrugada, chegamos à festa.
Estava vazia, alguns grupinhos de garotas conversando, na pista de dança só a dj. Resolvemos sentar um pouco e observar. Alguns rostos conhecidos, outros, nem tanto. Conforme os minutos passam, a casa vai enchendo mais e mais. Eis que surge uma garota. Dizer que ela era bonita não seria justo. Era linda. Não um 'mulherão', nada de tão estonteante, mas belíssima. E não só na minha opinião. Passo a observá-la: cada passo seu, um olhar meu. Com a pista cheia, perco-me dela. Desencano e continuo dançando.


Quando resolvo ir para outro ambiente deparo-me com a garota mais linda da festa beijando uma outra, cujo rosto não consigo ver, porém o conjunto não me agrada. Desejo insistentemente ver como ela é. E consigo. Não gosto mesmo do que vejo e me questiono: seria ficante, namorada, mulher? A Bela e Fera?

Elas não dançam juntas, mas a Fera não tira os olhos da Bela, que parece não se importar e dança com os olhos fechados, toda desenvolta. Vez ou outra, elas se olham e se beijam. A Fera permanece apenas, com suas mãos no bolso, a observar. Reparo que sempre que a Bela pára de dançar e vai pegar uma bebida, a outra vai atrás. Parece perseguição. E dá medo só de olhar para Fera e seu semblante sério.

Um casal que chama a atenção de qualquer pessoa. Ficamos, sim, transtornadas. O que mais nos intrigava: o que a Bela viu na Fera? Difícil decifrar.
Elas viram a sensação da noite. Não conseguimos tirar os olhos das duas, nem disfarçar o incômodo que nos causaram.

quarta-feira

pingüins.


Quarta, pós-feriado. Fim do dia do trabalho e início do trabalho, pra quem trabalha, não pra mim. Só queria chegar ao curso no horário.
Porém, o já previsível caos no transporte não permitiu. Baldeação na Sé: e quem disse que seria fácil pegar a linha azul?
Deparo com aquela turba pouco pensante que se locomove maquinalmente por obrigação do cotidiano. Um pouco mais densa que o normal. Uma das escadas rolantes estava curiosamente funcionando, por pouco tempo. Enquanto desço as escadas não-rolantes, gritam: “Parem a escada! Parem a escada!”. Tumulto, pessoas sobem correndo a escada que desce, outras fingem que não estão ali, engraçado, vontade de rir. Não rio. Último degrau, e pela frente o longo percurso em micro-passos até o extremo da plataforma. A dança dos pingüins. Que quanto mais atrasados mais dançantes ficam, e eu danço junto. Por que não rir? Controlo, não rio.
Perco os primeiros trinta minutos da minha última aula de Direito Constitucional, e essa diferença de meia hora não me faria entender mais o que já não faz sentido tão descaradamente.

Mas São Paulo é assim. Terra da garoa e dos pingüins metropolitanos.

segunda-feira

pele.


Por volta das 16h. Vestiário feminino lotado de senhoras que irão para a aula de hidroginástica. Eu, de maiô, toda 'molhada', pego minha toalha para tomar banho. A senhora que está ao meu lado, olha para minhas costas e comenta:

- Que pecado! Pele tão bonita.

Retribuo com um sorriso 'amarelo', só pra não ficar chato. E mesmo sem o sorriso não ficaria chato, pois ela já foi chata comigo. Em pensamento, me imagino sendo irônica com aquela senhora. Por que não fui? Por que fiquei quieta? Talvez por respeito. Se aquelas palavras tivessem saído de uma boca bem mais jovem eu teria rebatido. E, muitas vezes, deixamos de rebater algo por respeito, por educação, no entanto as pessoas não pensam nisso quando falam o que nos desagrada.

Sim, fiquei com raiva daquela senhora. Se ela tivesse estendido a conversa, eu poderia ter sido irônica. Mas ficou por isso mesmo.

Quantas vezes já aconteceu de você estar ao lado de pessoas depreciando algo que você gosta, ou que você é, ou que você tem? Comigo isso já aconteceu várias vezes. É inevitável. Como quando falam mal de sapatão e do nojo que é duas mulheres se beijando... E, nesse momento, minha maior vontade é começar a beijar a mulher que estiver ao meu lado, deixar quem falou isso o mais sem graça e desconfortável possível. Seria ótimo. Porém, ora não posso fazer nada pois a situação não me permite, ora olho feio para a pessoa e tento mostrar que ela foi infeliz em seu comentário. As pessoas que falam mal não deveriam sair ilesas disso. Odeio saber que isso é tão freqüente quanto beber água e que está presente em nossas vidas diariamente.

O pecado: uma tatuagem em minhas costas. E minha pele nunca foi 'tão bonita' como a tal senhora disse. Aliás, ela está bem mais bonita agora.

sexta-feira

amor liberta?


Engraçada a forma como a maioria das pessoas se tratam em seus relacionamentos: meu amor, minha namorada, minha mulher, meu casamento, meu isso, meu aquilo. Pessoas e sentimentos coisificados e tomados como posse, como propriedade.

Em seus primórdios, a monogamia tinha como função, ao homem, garantir que seus bens e propriedades pertenceriam sempre à sua casta. Arrisco até a dizer que a idéia de família e propriedade privada nasceram intrinsecamente juntas. Daí a coerência em pensar no parceiro amoroso/amante como propriedade.

Mas seria, o amor, apenas um sentimento que, de alguma maneira, serviria unicamente para concretizar uma finalidade econômica inconsciente? Por que sempre precisamos de exclusividade quando vivemos um relacionamento afetivo, assim como quando compramos uma roupa ou qualquer outra coisa pessoal e não gostamos de dividir com ninguém? Até onde vai o direito de privar o sentimento do outro e o nosso?

Por que não podemos amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?

quarta-feira

descendo escadas.


Uma sala bem pequena de teto muito baixo, tanto que era preciso encurvar-se bastante para andar, tábuas largas e espessas no chão com grandes frestas entre si, meio soltas. Todos se sentam contra as paredes; desconforto. Alguém deseja um bom espetáculo e fecha a porta.
A escassa iluminação que havia esvaiu-se rapidamente. Tenho medo do escuro há 27 anos, passei da idade de me envergonhar e por isso assumo. Meu desconforto deve ter sido um pouco maior do que para os demais.
Luz oscilante de velas; e alguém sob as tábuas, onde pisávamos, surge, de voz muito grossa; tenho a impressão que ia vestindo-se enquanto falava e esgueirava-se como podia, horizontalmente, sob as tábuas. Relata suas aflições metralhando a todos com pensamentos que para o nosso bem-estar e dos outros, quase sempre, evitamos. Afirma e nega suas próprias crenças, investe contra si mesmo, contra sua consciência. O ator materializa um extremo de perturbação que é prudente evitar, mas que acontece. É preciso, então, aniquilar-se para continuar.


Era o homem do subsolo de Dostoiévski, e o subsolo era sua própria consciência.


O que há de mais perturbador do que 2 e 2 ser 4?
A lógica só faz sentido no mundo prático, não no subjetivo. Pueril acreditar que cada um tem o que merece ou querer racionalizar a vida. Quem já andou pelo subsolo sabe disso. Espíritos rasos crêem na lógica.